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Thursday, October 24, 2019

Começa a exumação de Franco, 16041 dias depois de ter sido enterrado no Vale dos Caídos - Observador

Começa a exumação de Franco, 16041 dias depois de ter sido enterrado no Vale dos Caídos - Observador

O corpo do ditador espanhol Francisco Franco, que governou Espanha desde o fim da Guerra Civil em 1939 e até à sua morte em 1975, vai começar a ser exumado às 10h30 locais (9h30 de Lisboa) da basílica do monumental Vale dos Caídos e mais tarde levado para um jazigo de acesso restrito no cemitério de Mingorrubio.

Os dois momentos deste processo contarão com a presença de um grupo restrito de pessoas. Em primeiro plano, estarão os 22 familiares de Franco (entre descendentes diretos, como netos e bisnetos, tal como os seus cônjuges) que foram autorizados a assistir à exumação e à inumação — serão alguns deles que vão carregar em ombros o caixão exumado de Franco até à saída da basílica.

Os trabalhos de exumação tiveram início às 10h30 locais. Passada 1 hora e 47 minutos desse momento, foi anunciado que a lápide que tapava a campa de Franco — uma única peça com um peso de cerca 1500 quilos — tinha sido retirada com sucesso.

Além dos familiares, as únicas pessoas que vão estar presentes serão os operários da funerária que ganhou o concurso público para fazer a inumação, um especialista forense que avaliará o decorrer dos trabalhos ao longo do dia e a ministra da Justiça, Dolores Delgado, que ali estará na qualidade de notária maior do Reino de Espanha. A família já fez saber que não estará disposta a cumprimentar aquela governante e pediu para assistirem à exumação em pontos opostos da basílica.

O processo decorrerá também sem a presença de telemóveis (os presentes na cerimónia foram revistados à entrada) e apenas a agência EFE e a TVE estão autorizados a filmar o Vale dos Caídos — apenas no exterior e nunca dentro da basílica — neste dia excecional. O espaço aéreo de Cuelgamuros, localidade onde o Vale dos Caídos se insere, foi encerrado de maneira a não haver helicópteros ou drones que possam captar imagens.

O total dos custos da exumação, que serão da responsabilidade do Estado espanhol, está fixado nos 63.061,40 euros. Nesta maquia inclui-se os custos da exumação (11.709,17 euros), a reparação do local de onde foi retirada a lápide de 1500 quilos que até agora esteve em cima do caixão de Franco (4.932,92 euros) e também a renovação do panteão de acesso privado, mas propriedade estatal, onde Franco será enterrado ao lado da sua mulher, Carmen Polo. Este último processo é o mais caro: 39.811,79 euros.

Apesar de a exumação e inumação de Franco estar planeada até ao detalhe, há ainda um elemento que está em aberto: o transporte do caixão do ditador entre o Vale dos Caídos e o cemitério de Mingorrubio.

O plano A será fazer o transporte de helicóptero entre um local e o outro — estão ambos preparados para que aquele aeronave ali faça uma aterragem. Desta forma, o transporte será feito apenas em 10 a 15 minutos, além de poder ser feito em melhores condições de segurança. Esta opção poderá ser descartada caso haja nevoeiro em qualquer parte do trajeto. Dessa forma, o plano B será fazer o trajeto de carro — o que levaria 40 ou mais minutos.

Em qualquer caso, o transporte será feito com a presença de duas pessoas dentro do helicóptero ou do carro escolhido: Francis Franco, neto de Franco, e a ministra da Justiça, Dolores Delgado.

Num comício esta quarta-feira à noite em Zamora, na véspera da exumação, Pedro Sánchez disse que esta era “uma grande vitória da democracia espanhola” e rejeitou estar a aproveitar-se deste momento para conseguir ganhar votos nas eleições gerais de 10 de novembro. Embora a campanha eleitoral comece oficialmente apenas a 1 de novembro, a menos de um mês das eleições gerais o clima político espanhol é já de pré-campanha.

“Há quem diga que isto é eleitoralismo, mas não é. Nós, no Governo de Espanha, dissemos que íamos exumar os restos do ditador e que queríamos encerrar o mausoléu no dia em que pudéssemos. Nem um dia antes, nem um dia depois. E esse dia chegou”, disse. “Será amanhã, 24 de outubro, quando acabarmos com o mausoléu do ditador.”

Na véspera, Pedro Sánchez já tinha enviado uma farpa à coligação do Unidas Podemos, ao lementar que “alguns na esquerda” olham para a exumação de Franco “como se fosse uma derrota”.

Mas é precisamente de eleitoralismo, e não só, de que o acusam alguns partidos da oposição, inclusive à esquerda. O líder do Unidas Podemos, Pablo Iglesias, disse que a exumação de Franco é uma “boa notícia”, mas criticou o timing. “Tivemos tempo para fazer isto nos últimos 40 anos. Fazer isto a uma semana das eleições e provocar possíveis manifestações de neonazis talvez não seja o mais prudente”, disse, numa entrevista à TVE. Ao contrário do que disse o líder do Unidas Podemos, a exumação não acontece uma semana antes das eleições, mas sim uma semana antes do arranque oficial da campanha eleitoral.

À direita, Pedro Sánchez também é criticado, embora nem todos olhem para a exumação de Franco da mesma maneira.

Da parte do Partido Popular, a estratégia do seu líder parece ser a desvalorizar este momento. Pablo Casado disse que no seu partido não se iria gastar “nem um só minuto a falar do que se passou em Espanha há 50 anos”, sublinhou que o passado está “felizmente superado” e que impera agora “olhar apenas para o futuro”. Em alusão à Transição de Espanha, entre ditadura e democracia, desde a morte de Franco em 1975 até à aprovação da Constituição ainda vigente em 1978, Pablo Casado disse que ele próprio é “neto de uma geração excecional e generosa que deu um abraço estabelecer a Transição”. Ainda assim Pablo Casado disse que é “evidente” que o PSOE quis que a exumação fosse durante a campanha. “E assim será”, sublinhou.

No Ciudadanos, o líder Albert Rivera disse que “a única coisa boa da exumação é que Pedro Sánchez deixará de falar sobre os ossos de Franco”. “Em 2019, porque é que não falamos de educação, pensões, emprego, ou seja, os temas que fazem sofrer a maioria das famílias quando acordam hoje?”, lançou Albert Rivera num programa matinal esta quinta-feira. Sobre a exumação de Franco, e a sua posição, Albert Rivera disse: “Para mim tanto me faz, porque eu nasci em democracia”.

A exumação de Franco foi aprovada no Congresso dos Deputados com a aprovação do PSOE, do Podemos e de vários partidos independentistas ou de caráter nacionalista das várias regiões de Espanha. Além disso, contou com a abstenção do PP e do Ciudadanos, que assim permitiram que este processo seguisse em frente.

Nessa altura, ainda não tinha representação parlamentar o Vox, partido de extrema-direita e o único que se opõe abertamente à exumação dos restos mortais do ditador.

“Que nos queiram convencer a todos que a montagem que vai haver amanhã não tem nada a ver com uma encenação eleitoral é algo do qual nem o Tribunal Supremo nem ninguém nos vai conseguir convencer”, disse Santiago Abascal líder do Vox, esta quarta-feira. Acusou ainda Pedro Sánchez de querer “resgatar os velhos ódios”, disse que “não pode haver nada mais triste”.

Em setembro, Santiago Abascal já tinha dito que o governo de Pedro Sánchez estava a impedir a “convivência entre os espanhóis” ao “profanar campas”.

“Tanto nos faz que seja legal ou não a intenção do governo de profanar campas contra a ontade das famílias. Estaremos sempre contra que se desenterrem mortos e ódios do passado. Olhemos para o futuro. Porque amamos Espanha e desejamos a convivência entre os espanhóis”, escreveu Santiago Abascal no Twitter.

Este é o culminar de um caminho de vários anos, impulsionados por governos socialistas e bloqueado, pela via da inação, por parte de executivos do Partido Popular.

A exumação de Franco do Vale dos Caídos ganhou contornos mais concretos depois de aprovada a Lei da Memória Histórica em 2007 e a consequente aprovação em 2011 de um relatório de especialistas convocados pelo governo do socialista Jose Luis Rodríguez Zapatero. Porém, o seu sucessor, Mariano Rajoy, não deu seguimento àqueles dois trâmites, ao limitar quase a zeros as verbas públicas destinadas à exumação de fossas comuns da Guerra Civil (como permitia a Lei da Memória Histórica) e ao não tocar no assunto da exumação de Franco.

Este tema foi retomado em 2017, quando os partidos da oposição no Congresso dos Deputados aprovaram uma lei que decretou a exumação de Franco do Vale dos Caídos, dando assim seguimento à recomendação do comité de especialistas convocado pelo governo de Zapatero.

Esta foi, no entanto, uma lei deixada em banho-maria, até que o socialista Pedro Sánchez conseguiu derrubar o governo de Mariano Rajoy com uma moção de censura e assim substituir-se ao conservador no Palácio da Moncloa. A exumação de Franco foi uma medida assumida por Pedro Sánchez poucas semanas depois de ter tomado posse, em junho de 2018, passando desde então a envolver-se o Governo de Espanha num intricado processo legal com a família do ditador.

No final de contas, e mais de um ano depois, o Tribunal Supremo deu razão em toda a linha às pretensões do Governo de Espanha, permitindo não só a exumação como determinando que Franco teria de ser enterrado no cemitério de Mingorrubio (como o governo quis) e não na Catedral de La Almudena (como quis a família de Franco, o que contou com a oposição do governo, que evocou razões de segurança).

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2019-10-24 08:42:49Z
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